domingo, 22 de maio de 2011

Evolução do sarcasmo

           Receio a morte, não o que provém dela, mas a detenção de valores abstraídos no nada, na vastidão ridícula, censurada pelos demais neste mundo, cruel, marcado pelos defeitos, pela guerra constante e indeterminada, pela tentativa de minimização oculta dos reais problemas facultativos. Aqui e agora, um mundo de vanglória, rodeada de miséria faminta de novidade positiva. Aristotelicamente, guardo em mim a memória globalizada, do desejo criativo atingível, talvez, na esfera vencedora – a magia vigiada pela sensatez de uma cultura contraposta á verdade, de um terreno que apoia o seu nacionalismo até á sua incineração. Mesmo que vencida, numa guerra labiríntica, armada por um povo desgostoso, implorando pelos cravos comunistas. Abranjo a maresia simbólica, relaxante, perante o fim obscuro formulado por mim, em todos.
            Rastejar por alimento, dormir ao relento, implorar pela resistência da arte na capital da beleza escondida, omitida e vulgarizada.

            A que humanidade pertenço eu? Que veracidade surgirá entre cadeias ausentes de compaixão? Responde um inimigo da liberdade: “O nascimento dignifica a exactidão da felicidade. O sofrimento é o destino. A utopia contrapõe-se.” E eu, abismada com tal comentário, corro na sua direcção, apunhalo-lhe o peito inconscientemente e, liberto no coração de Lisboa, o exercício cósmico, a energia da comunhão incessante e sagrada.
            Que faz a minha modernidade, hiperbolicamente evoluída, instituída num carácter mortífero, prestes a domesticar a segunda existência, repleta de malfasejas? Uno o corpo à alma, sacrificados, adulteramente pelas impurezas fúnebres do sepultamento prévio que alcançará o nosso país – altar carbónico ao som de um hino orado, extinto de força sucessiva.
            Propriedade privada? Não exijo convulsivamente. Autoritária, manejo o refúgio pessoal. Apenas isso. Desejo o mínimo legatório.

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