segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

a.d. III Kal. Jan. MMVII


            Controlar-te-ei, demónio saciado!
            Noite a qual me senti perdida, só, numa multidão, entre palavras drogadas de sentido, sonhos desmedidos, festas, diabruras, caminhos de perdição; foi a destrutiva. Não sentia as pernas, a força delas estava entalada na curva daquela rua que jamais pensei que me apunhalasse de tal modo. Não mexiam os seus tendões, gritava enervadamente… uma dor preenchia o peito meu, sufocava as palavras; apareciam-me flashes do sucedido. Sob a cama gelada, me antecipei na morte por breves segundos; atordoada quis desaparecer, romper com garras afinadas, o dia mais desgostoso de todo um globo.
            Voltando à questão, contra a electricidade me pus; peças ao ar revoltando-se na esfera dita mundo; rodas volteando-se vezes sem conta da conexão com o chão húmido, frio e escuro. Automóvel verde – água; novo; preso; amolgado; entre árvores decadentes, tu, que me assombras todas as noites como um ninho barulhento zumbindo nos meus ouvidos; pseudo - inconsciente deparei-me com um assento, eu nele; um plástico branco; debrucei-me sobre a janela, visto que a porta não se abria nem por obra de Deus, e salpiquei as palmas das mãos com vidros; ensanguentei a minha caveira branca, pespontada a preto e vermelho – a morte perseguia-me, e eu, guerreira fugi-lhe por entre os ossos. Subi rampas, que de lançamento não o eram, mas deixavam-me chegar a um pontinho vago de luz.
            Inspiro, expiro, e lágrimas percorrem-me o rosto como chuva torrencial num dia assombroso… Continuo, então… Ouvia buzinas, ambulâncias, via pessoas enevoadas, senti teclas de um telemóvel e ouvi a voz preocupada da minha mãe que temia o pior “Mãe, estou bem”, foram as minhas palavras de ansiedade pela sua chegada. A carga de continuar o meu caminho, a estadia de um dia ter alcançado o sonho de licenciar-me em literatura e nos parâmetros de letras e humanidades, cedia a quase desistência. Mas sou a melhor no que faço, como poderia invalidar a capacidade audaz de fazer passar aos outros a minha mensagem? A mensagem. Jamais! Entre decepções, manobras difíceis, o facto de não conseguir orientar-me sozinha, cegou-me a vontade de seguir em frente, apenas por breves momentos, mas aconteceu-o variadas vezes, mais do que a própria consciência fazia passar à vontade referida.
            Enfim… Ao chegar ao hospital, amarelado, estranho, nada aconchegante e repleto de gente, gritava as goelas fundas, deixando quem me rodeava, triste, contendo a gravidade do problema, do desastre acidental. Queriam extasiar-me, não deixava; tiravam-me a roupa, e eram brutos, loucos, ali apenas pelo dinheiro ao final do mês na conta bancária… Numa cadeira de rodas ia com o meu pai, rumo à casa de banho e não me mexia sem o auxílio dos maiores amores da minha vida: os meus progenitores. Sentia-me num externato, fechado; enlouquecia sem conhecer-me a mim mesma, negra na face, arranhada, partida (não no sentido literal) em bocados, amedrontada. Pendurei a minha mão sobre uma das vítimas, apertei-lhe forte e disse-lhe convictamente que não queria partir; pedia perdão ao meu pai pelos sucessivos mal feitos da minha história, tenra história, que por segundos se desvanecia. Horas a fio, lá estava eu, sem acção possível, sem opção perante os acontecimentos. Permanecia. E não terminava.
            Sem querer ferir medos terrestres, sonhos imundos mas por algum lado graciosos, a vida corre contra as setas do tempo, e temos a mão aberta do Céu para a nossa entrada nas nuvens. Sejam coerentes, não deixem que a malícia vos perfure a cratera da personalidade!

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Satanás: rasga o passado

            Fecho os olhos: caos e negridão, unicamente o que vejo.
            E se me estendesse aos momentos que estão por vir? Missão impossível. Tendo a fazer-me sofrer com aspectos que nem a mim mesma fazem-me entender. É sobrenatural; um coração que salta num precipício tenro, que por ele sustenho a respiração, e me afogo no seu calor ardente, dito vermelho, sangrento, gotinhas vida/morte. Nuns momentos, me entristeces na capa do tempo; noutros, transformas-me numa sereia que nada contra o tempo, vislumbrando o primeiro toque, o beijo surpreendente e dinamizador de paixões que jamais se apagam, nem por ínfimos anos de tentativa de esquecimento…
            Con(sem)tigo sou incapaz de cortar os punhos da razão,
            Cor bordeaux, sentimento: paixão;
            Sem noção,
            Sei que encontrei a importância reservada à ambição
            Determinada, lutadora, entre culpa e arrependimento.
            Esta queda amaldiçoa-me todas as noites, colocando-me entre insónias provenientes de obsessão que embora enobreça, também enlouquecera e, tenha atraído (e atrai) os anjos do demónio, caindo sobre os meus cabelos, tecendo as origens do meu sofrimento. Colo a cabeça sobre as penas, sobre os tecidos, cheiro a amor que não acaba, e devaneio-me entre os perigos, os medos, a insegurança, o querer - não puder; esta é a sina torturada pelos comportamentos incorrectos, embora arrependidos de uma mulher acriançada que ama com todo o seu pesar.
            Não utilizes argumentos ridículos para fugires à verdade dos acontecimentos (Amor pintado de fresco), a não ser que o perdão esteja guardado no fundo da gaveta, entre folhas reluzentes. Ou, por muito que me custe admiti-lo, não tenha sido nada mais do que um contratempo que utilizaste como arma à monotonia da tua vida rasca, sem graça qualquer, sendo que, a probabilidade de terminares num vago, sombrio e ventoso deserto, é superior às tuas expectativas.

domingo, 13 de novembro de 2011

Basalto Negro


            Vontade de acabar com a vida, esta, que me sustenta um suspiro de angústia tardiamente concebida. Um mero peso morto, sou, um tormento sangrento, um poço negróide, de semelhança com o mal alheio, uns quantos adjectivos sucessores de tragédia, perante o que não se pretendia para quem amamos, ou dizemos amar. Se não to dou, orgulho, diria eu, então porque não mo dizes sem falinhas mansas, palavras que vão contra o despojamento das reais. Medo será a palavra indicada para que as pessoas não sejam francas umas com as outras – verdade dura e crua.
            Por momentos, vagueou-me pela mente, o verso triste, sensato, embora eficaz, de Raul Solnado: “ Façam o favor de serem felizes”. Compitam-se a fazerem-no. A qualquer instante, as sementes minhas, que plantaram sem um senão, terminarão sem qualquer razão. Amor pelo próximo, por quem supostamente daríamos a mísera vida que nos resta, é ir além do abstracto, é sentir nas veias o calor do sangue, do que é ser filha, namorada, amante, simplesmente amiga.
            Confrontar-me-ei posteriormente com soluções rápidas, tendo eu a querer que o seja de tal modo; a ser eu mesma, sempre, independentemente de obstruções, de consequências que dificultam a continuação de planos, que nos agradam a motivação, a esperteza íntegra, a magia lunática do querer sempre mais.
            Sou incontrolável, uma menina crescida entre árvores, gritando a liberdade de expressão, compaixão pelos sonhos brancos, cor ingenuidade – infantil – sensacionalista.
            Continuo aqui, entre ir, revoltar e recuar, tentando tatuar o amor e a felicidade, acima da discussão, baseada em assuntos que não matam a sede, não escondem a pobreza, os cadáveres, os acidentes, as guerras, as discórdias, as políticas vencidas. Amo o que não tenho, o sucesso…garantido! Facto é que, arregalo os olhos, como se por mim o mundo mudasse, como se o tempo voltasse ao meu quarto escuro de brincadeirinhas encantadas, às bonecas, com as quais falava em dupla voz; às danças, sonhando ser bailarina num passo de mágica; aos sorrisos, esplendores no seu auge, que tornavam os outros encapotados por me ver crescer num dia-a-dia de muita agitação, entre crianças, estudos, galhofa, namoricos, ginástica teatral, e felicidade. Mas, onde andas tu? Com os morcegos sanguessugas, que roubam o bem a quem precisa dele para inspirar ar puro, suspirar stress tedioso.
            Lamento não superar as expectativas de quem mas entregou em mãos um dia.
            Eu! Muda de sentidos, longe da perfeição.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Sonhos mil


            Grito como se um dia, assediada pela máquina do tempo, corresse contra o relógio finito de sensações gordas de se fazer sentir. Faço-as esperar na ponte final, perdida, entre rochas abdicantes e tremendo de frio. Esta é a história de uma vida publicada ao vento, roncando pequenas porções de paciência, a que resta, no chão sujo, repleto de lama.
            Confesso que esta vida resume-se a meses acumulados, que inserir-se-iam, quem sabe, numa agenda crua e nua de desgostos, numa masmorra de sentimentos cinzentos, de lágrimas atormentadas pelas velas que tendem a incendiar um mundo de exaustão que denuncia as apunhaladas traições no peito, senão, uma relevante pressão arrebatadora do dito ‘normal’. Mas…se não o sou, porque tendo a fugir às barreiras amaldiçoadas, que jamais me deixaram ser feliz? Não tenho uma resposta objectiva, apenas continuo desorientada no tapete vermelho que me fugiu sem razão alguma debaixo dos meus pés, deixando de me fazer voar, longe do sofrimento inquietante e absurdo, das normas impossíveis que se fazem ansiar sobre causas contraditórias.
            Como liberto a melancólica ira do ir sem volta? Talvez vibrando ao recordar-te no crepúsculo da noite, na intensidade acrescida pela dor. Enquadro-me, neste momento numa agressiv’ocular, visão dos infernos, alusão ao fim de vida, ao poço de insegurança preocupante. Fragilizada permaneço, ofuscando um grito de perda constante, deslocada então, na vontade esgotada de sentir no passado audaz um rasgo profundo, inspirando pulsações repletas de íntegra saudade, e decapitando respirações ambíguas, torturadas na vastidão da loucura, proporcionadas pelo desrespeito magoado.
Instinto, o que de mim levas? Um corpo sepultado na eternidade d’um gemido de prazer. Oh! Porquê? Porquê eu? Erro substancialmente, no medroso pecado mortal, na vontade involuntária de trair a compaixão unida no nós, preenchido no sempre.
E, num adeus tumultuoso, encaminho-me no tédio sensitivo, na evasão desencantada, sem salvação partilhada…um sonho perdido, uma lágrima de ópio.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Contános o día máis feliz da túa vida


          O día máis feliz da miña vida foi sen dúbida, estar na mesa co Poeta de honra, do País máis extraordinario do Século XX, Fernando Pessoa, o home das letras por excelencia.
Entre palabras sen cerimonia, apoiadas sobre a mesa, lía algúns dos seus poemas, agradables á vista. Deixáronme estupefacta e sorprendida con tanta escrita asociada á perfección, facendo-nos desdobrar noutras personaxes, así como, sentir todo de todos os xeitos, dramático na súa complexidade. Case non vía onde miraba, se para min, o para o enigma que pretendía a cada día descifrar. De certo, non poderá, porque a escuridade está preta, e a dificultade de manter os nosos soños é complicada. Agradaba-me aquela dimensión astroloxía, que nos facía recuar ou elevar o tempo, aquel saber extremo sen noción de límite e sen contratempos. Era el mesmo, e alí estaba eu a delirar co a súa presenza, no auxe da imaxinación, no florecer, no camiño e na ambición da escrita. Si, porque escoitar o Rei de experiencia, é crecer na área que o rodea. Sentí algo tráxico nas súas palabras, heroicidade no modo de ver o mundo.
            Sendo así, aínda hoxe, presencio ese momento como único e ficcional. A miña mente abriuse á imaxinación e tentou integrar-se nun momento de gloria co ortónimo. Como sería eu capaz de me envolver con el nun momento de interrogación rectórica, senón nun soño? Inexplicable, é un feito, pero non lamento. Soñei acordada e foi asombroso sentir un nerviosismo estupefacto nas miñas entrañas, ao notar a capacidade intelectual do autor. Non me condenen por tentar, inconscientemente, achegar-me, ao que para min é o significado máis relevante de estar viva e continuar neste mundo sen sentido, sen dó nin piedade. Entre sorrisos de boca aberta, de corazón sentido, así me sentí co a universalidade do Fernando Pessoa, marcada polo modernismo,  característico do seu tempo. Ben, non teño alento para describir tal situación, esta miña fuxida na mente, rodeada de libros cultos, do Señor da palabra e do libre, pero quero-me debruzar sobre tal tema porque me causou os minutos máxicos, aínda que fosen finxidos.
            Alguén entenderá este meu sentimento interior, conflitivo entre si, manuseado entre ser ou non ser, sentir ou non a capacidade de liberar pensamentos relacionados co a personaxe titulada de Fernando Pessoa na súa magnitude? Eu diría que non é doado entender este amor platónico por un home que marcou unha xeración replecta de 'dor de pensar', agonía de vivir, confusión asociada ao non saber definirse. Valorizo ​​con gran determinación o seu heterónimo Álvaro de Campos', chegando ata a afirmar que é a escrita máis brillante de toda unha vida. Por suposto, non me podo esquecer do dinamismo de António Lobo Antunes, con quen me identifico, do Nietzche, Mário de Sá Carneiro, Arthur Schopenhauer, Baudelaire, entre outros. A pesar deste separador, sigo a dar a maior sensibilidade ao ortónimo, por quen teño unha paixoneta, nada secreta, pola escrita no seu máximo. Esta paixón estrondonsa iniciouse á dez anos, na miña adolescencia revoltante, e sobre todo libre de prexuízos e conceptos. Esta son eu, cun pasado que define o ser en que me fixen hoxe. Un hoxe que é nada máis, nada menos, que a pobreza mental da poboación, que non lle importa co a cultura, co a lectura, co a esperteza e co a intelixencia, ambas ambivalentes e fortes para determinar o desenvolvemento e o florecer da imaxinación que xorde desde a infancia con pequenas falas, con pequenas aprendizaxes.

domingo, 16 de outubro de 2011

Comer e Morrer de Fome

            Que loucura estonteante esta!... Sabor anulado entre muitos e abismado, que com tanta ignorância e egoísmo no seu auge, deixem passar paralelamente a secura das línguas brancas, quase esmorecidas.
            Oh seus donos da infantilidade e da desocupação de acontecimentos livres, a manifestação de caridade e verdade perante actos de frio arrepiante em becos sem saída, encapotava calor nos corações sem esperança de salvação…uma pequena doação de afecto, de sobriedade seria menos desolador para quem está prestes a alcançar o caixão mortífero, vazio de nada e ninguém, patético de tão falhado em si mesmo.
            Gente minha, acompanhem de perto as tentativas entre arbustos escondidos, destes velhos caídos, sem reputação, repletos de tenra ideia do que é viver, sentir e ter. Vá, sem ideia alguma, coloquem-lhes defeitos, riam-se às gargalhadas fortes e deploráveis, passem minutos preciosos a cozer na casaca dos nossos amigos ‘sem abrigo’, que tanto nos fazem lamentar a realidade nada invejável da situação a que estamos obrigados, à fama eloquente, inacreditável e que sucessivamente arderá em poucos segundos.
            Queridos leitores, ou tentativa de, a violência verbal perante os seres que arruínam as ruas negras da nossa Cidade, é lamentável, grave e, portanto, fracassada, visto que, sem surpresas risonhas na cara, tentam um suspiro a cada instante. Não vulgarizem a instabilidade que já persiste e tende a ficar, humilhem-se a vós mesmos, olhem no espelho o pódio da virtude lá trás no vagueado fundo, afastado…miniatura de gente.
            Sorriam, sim, maleficamente, como recordação, porque brevemente arranco-vos o colarinho, mesmo o mais sólido, engravatado, bem vestido, com entranhas fundas de perversidade banalizada pelo horror humano.
            Arregale-me esses olhos, povo sádico, não seja mesquinho com os aspectos alheios, lisonja a vossa possessão com dignidade influente. Diga de ‘boca cheia’ palavras longe do conceito abrupto e rude de hipocrisia. Dê ao próximo a nudez de sentidos, um pacote de leite, umas migalhas de pão, uma fruta, que embora com os balanços e as travancas da vida, ali chegou.

Resgata (me)

- Tu’ ingratidão macadamiza os atos meus,
Dobrando os membros, desfalecendo sobre tijolos
Podres de amargura, sóbrios, como os seus.
Dai-me ao abstrato, cacos, sujidade, miolos…

Tinto, solução do arrependimento cruzado,  
Uma gota de veneno, fuga em projeto:
Delineia-me cor aos olhos cerrados,
Planifica-me um majestoso tom negro…

…negro já o é, e anseio voltar à “explosividade”
Das emoções, que choram retamente a viscosa,
Espampanante, onda de amor; exclusividade
De quem devastada, escuta sussurradamente a lágrima d’ uma rosa.

Claustrofóbica, sois tua, nua. Formosa contigo.
E, furtivamente me prendi ao ponto de abrigo,
Tal o é, que de entre batalhas,
Venci com distinção incerta, as agarradas encruzilhadas.