Controlar-te-ei, demónio saciado!
Noite a qual me senti perdida, só, numa multidão, entre palavras drogadas de sentido, sonhos desmedidos, festas, diabruras, caminhos de perdição; foi a destrutiva. Não sentia as pernas, a força delas estava entalada na curva daquela rua que jamais pensei que me apunhalasse de tal modo. Não mexiam os seus tendões, gritava enervadamente… uma dor preenchia o peito meu, sufocava as palavras; apareciam-me flashes do sucedido. Sob a cama gelada, me antecipei na morte por breves segundos; atordoada quis desaparecer, romper com garras afinadas, o dia mais desgostoso de todo um globo.
Voltando à questão, contra a electricidade me pus; peças ao ar revoltando-se na esfera dita mundo; rodas volteando-se vezes sem conta da conexão com o chão húmido, frio e escuro. Automóvel verde – água; novo; preso; amolgado; entre árvores decadentes, tu, que me assombras todas as noites como um ninho barulhento zumbindo nos meus ouvidos; pseudo - inconsciente deparei-me com um assento, eu nele; um plástico branco; debrucei-me sobre a janela, visto que a porta não se abria nem por obra de Deus, e salpiquei as palmas das mãos com vidros; ensanguentei a minha caveira branca, pespontada a preto e vermelho – a morte perseguia-me, e eu, guerreira fugi-lhe por entre os ossos. Subi rampas, que de lançamento não o eram, mas deixavam-me chegar a um pontinho vago de luz.
Inspiro, expiro, e lágrimas percorrem-me o rosto como chuva torrencial num dia assombroso… Continuo, então… Ouvia buzinas, ambulâncias, via pessoas enevoadas, senti teclas de um telemóvel e ouvi a voz preocupada da minha mãe que temia o pior “Mãe, estou bem”, foram as minhas palavras de ansiedade pela sua chegada. A carga de continuar o meu caminho, a estadia de um dia ter alcançado o sonho de licenciar-me em literatura e nos parâmetros de letras e humanidades, cedia a quase desistência. Mas sou a melhor no que faço, como poderia invalidar a capacidade audaz de fazer passar aos outros a minha mensagem? A mensagem. Jamais! Entre decepções, manobras difíceis, o facto de não conseguir orientar-me sozinha, cegou-me a vontade de seguir em frente, apenas por breves momentos, mas aconteceu-o variadas vezes, mais do que a própria consciência fazia passar à vontade referida.
Enfim… Ao chegar ao hospital, amarelado, estranho, nada aconchegante e repleto de gente, gritava as goelas fundas, deixando quem me rodeava, triste, contendo a gravidade do problema, do desastre acidental. Queriam extasiar-me, não deixava; tiravam-me a roupa, e eram brutos, loucos, ali apenas pelo dinheiro ao final do mês na conta bancária… Numa cadeira de rodas ia com o meu pai, rumo à casa de banho e não me mexia sem o auxílio dos maiores amores da minha vida: os meus progenitores. Sentia-me num externato, fechado; enlouquecia sem conhecer-me a mim mesma, negra na face, arranhada, partida (não no sentido literal) em bocados, amedrontada. Pendurei a minha mão sobre uma das vítimas, apertei-lhe forte e disse-lhe convictamente que não queria partir; pedia perdão ao meu pai pelos sucessivos mal feitos da minha história, tenra história, que por segundos se desvanecia. Horas a fio, lá estava eu, sem acção possível, sem opção perante os acontecimentos. Permanecia. E não terminava.
Sem querer ferir medos terrestres, sonhos imundos mas por algum lado graciosos, a vida corre contra as setas do tempo, e temos a mão aberta do Céu para a nossa entrada nas nuvens. Sejam coerentes, não deixem que a malícia vos perfure a cratera da personalidade!
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