sexta-feira, 1 de março de 2013

Desabo Esmorecida


            Vamo-nos. Não há nada a louvar. Um pouco a sacrificar.
            Se a infância nos controla e se coloca em fuga, como se o tempo avantajasse de imediato, como haveríamos de arquejar a favor da intensidade afável da maturidade? Não passará d’ um palco imaginativo, nefasto, uma magia por queimar, uma rasura plagiada de outro tempo? Quem dera a mim negociar com o relógio e arqueologicamente sentir dentro do peito as memórias de criança, uma pequenota que sonhava com a dança e com o teatro, conjugados num só. Se eu pudesse, seria amada apenas pela arte e pelo que a fundamenta, diria eu, com meias palavras, soletrando-as ainda no ventre da Mãe.
            Valha-me Deus! Aquele Colégio de madres inseriu-me na essência e dureza do ensino, preparou-me para o mundo louco, pouco angélico, pouco será amenizar a crueldade infinda que nos percorre. Piso o solo açoriano e sussurro-me um encanto meio-astral, procuro-lhe amores incuráveis, choros amedrontados, monstros diabólicos e sofredores, caixinhas musicais, detonadoras de paixão, de plasticidade, corpo a corpo, um toque voejante e ultra – dramático. Ai! Quem dera ser uma espiritualidade trovejante, colo bocejante, sentindo a quentura do passado passar-me pelas mãos, angustiar-me a alma, caminhar pelo corpo, saindo-me, então, a feiura da tristeza e da amargura. Pudera eu… Pudera eu!
            Família. Pai, Homem que negoceia consigo, persiste no bom projeto que o farei vibrar; Mãe, Deusa do Amor, dádiva da natureza: sois a raiz quadrada da minha formação, da revolta minha, quem sabe, do meu pouco oportunismo, nenhum, sim, nenhum. Da minha sensibilidade chorosa, da persistência humana e oscilante. Cabe-me a mim lutar, com garra nas veias, poder nos ombros, fúria nas unhas, que rasgam a cortina do perigo. Atiro-me sob a demente libertação, uma frustração que passa. Nego-a num inconsciente aberto, preleciono-a num ritmo acelerado mas logo me entrego à sua inevitável e desvairada história de lamentar. Lamento, não porque me arrependo de errar. Talvez seja a inutilidade de querer regressar atrás, aos ínfimos quarteirões, e não conseguir juntar as peças, pecinhas incríveis, as bonecas quase carecas de tanto brincar, a energia inacabada até então, a correria e a canseira ao fim do dia, os amiguinhos no recreio, os sorrisos, que esses sim, eram completa e unicamente uma obra de arte por apagar.
            Sugiro que transmitam aos vossos filhos, um pouco da amalucada infância que tive, a afabilidade que os meus progenitores me passaram. Triturem a ganância e aprendam a agarrar os vossos objetivos com as palmas das mãos, com suor, determinação, fazendo-vos doer os ossos na meia-idade. Em plena altivez m’inspiro e digo-vos em alto som: Teria feito tudo de igual modo. Aliás, não! Teria hiperbolizado todos os atos em maior número, cairia no erro em maior proporção, magoar-me-ia com regularidade, atirar-me-ia sob o poço da morte inúmeras vezes, até perceber que na idade adulta nada seria tão pacífico como antes.
            Conheceis finalmente o meu pavor, o susto de não voltar às raízes. Terroro-as e manifesto a minha ânsia de fim, quando me consciencializo de que outrem ficou para trás, na berma das lembranças, das fobias, que embora perigosas, substituíam a cobardia por honra, o ar desajeitado por uma quantidade prazerosa de humildade e sustância. Caminharemos todos, em prol da preocupação pelo futuro, embora sejamos a fraqueza humana a desdenhar do fim congénere a ambos os cidadãos: o definhamento como desfecho mórbido e tenebroso, que alimenta a vida de outros em retorno. Abençoados sejam os nossos pais por nos terem reencaminhado de lá para cá. Um até já!