Vamo-nos. Não há nada
a louvar. Um pouco a sacrificar.
Se a infância nos controla e se
coloca em fuga, como se o tempo avantajasse de imediato, como haveríamos de arquejar
a favor da intensidade afável da maturidade? Não passará d’ um palco
imaginativo, nefasto, uma magia por queimar, uma rasura plagiada de outro
tempo? Quem dera a mim negociar com o relógio e arqueologicamente sentir dentro
do peito as memórias de criança, uma pequenota que sonhava com a dança e com o teatro,
conjugados num só. Se eu pudesse, seria amada apenas pela arte e pelo que a
fundamenta, diria eu, com meias palavras, soletrando-as ainda no ventre da Mãe.
Valha-me
Deus! Aquele Colégio de madres inseriu-me na essência e dureza do ensino,
preparou-me para o mundo louco, pouco angélico, pouco será amenizar a crueldade
infinda que nos percorre. Piso o solo açoriano e sussurro-me um encanto meio-astral,
procuro-lhe amores incuráveis, choros amedrontados, monstros diabólicos e
sofredores, caixinhas musicais, detonadoras de paixão, de plasticidade, corpo a
corpo, um toque voejante e ultra – dramático. Ai! Quem dera ser uma
espiritualidade trovejante, colo bocejante, sentindo a quentura do passado
passar-me pelas mãos, angustiar-me a alma, caminhar pelo corpo, saindo-me,
então, a feiura da tristeza e da amargura. Pudera eu… Pudera eu!
Família.
Pai, Homem que negoceia consigo, persiste no bom projeto que o farei vibrar;
Mãe, Deusa do Amor, dádiva da natureza: sois a raiz quadrada da minha formação,
da revolta minha, quem sabe, do meu pouco oportunismo, nenhum, sim, nenhum. Da
minha sensibilidade chorosa, da persistência humana e oscilante. Cabe-me a mim
lutar, com garra nas veias, poder nos ombros, fúria nas unhas, que rasgam a
cortina do perigo. Atiro-me sob a demente libertação, uma frustração que passa.
Nego-a num inconsciente aberto, preleciono-a num ritmo acelerado mas logo me
entrego à sua inevitável e desvairada história de lamentar. Lamento, não porque
me arrependo de errar. Talvez seja a inutilidade de querer regressar atrás, aos
ínfimos quarteirões, e não conseguir juntar as peças, pecinhas incríveis, as
bonecas quase carecas de tanto brincar, a energia inacabada até então, a
correria e a canseira ao fim do dia, os amiguinhos no recreio, os sorrisos, que
esses sim, eram completa e unicamente uma obra de arte por apagar.
Sugiro que
transmitam aos vossos filhos, um pouco da amalucada infância que tive, a
afabilidade que os meus progenitores me passaram. Triturem a ganância e
aprendam a agarrar os vossos objetivos com as palmas das mãos, com suor,
determinação, fazendo-vos doer os ossos na meia-idade. Em plena altivez m’inspiro
e digo-vos em alto som: Teria feito tudo de igual modo. Aliás, não! Teria
hiperbolizado todos os atos em maior número, cairia no erro em maior proporção,
magoar-me-ia com regularidade, atirar-me-ia sob o poço da morte inúmeras vezes,
até perceber que na idade adulta nada seria tão pacífico como antes.
Conheceis
finalmente o meu pavor, o susto de não voltar às raízes. Terroro-as e manifesto
a minha ânsia de fim, quando me consciencializo de que outrem ficou para
trás, na berma das lembranças, das fobias, que embora perigosas, substituíam a
cobardia por honra, o ar desajeitado por uma quantidade prazerosa de humildade
e sustância. Caminharemos todos, em prol da preocupação pelo futuro, embora
sejamos a fraqueza humana a desdenhar do fim congénere a ambos os cidadãos: o definhamento como desfecho mórbido e tenebroso, que alimenta a vida de outros em
retorno. Abençoados sejam os nossos pais por nos terem reencaminhado de lá para
cá. Um até já!
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