Num dia de intensa chuva, debruço-me sobre o parapeito da vida, revoltando compulsivamente a infestação do amor sobre mim, vivenciando os privilegiados momentos ao teu lado. E, iludida num corpo queimado de mágoa, tento abrilhantar o vazio repleto em mim, congelado pela longevidade do frio, no fim lacrimoso, no abismo radiante e castanho dos teus olhos, e embora tenham escorrido lágrimas sofridas, sorrisos manifestaram-se, risos, felicidade imensa e estonteante, que me marcou na eternidade fugaz.
Recordaste do primeiro beijo, aliás, de todos eles? De como eram os nossos momentos de amor caloroso, de prazer, de incenso apaixonado entranhado na minha pele, ainda, no sempre? Mantenho o sabor dos teus lábios nos meus, a fragrância difundida sem limite, incapaz de se ausentar. Quando perseguias o meu corpo uniformemente e sentia-me de facto, única, segura, amada, esmagada positivamente, sinonimavas um tempo encarado e permanecido no presente, colocado na pausa, na concordância do destino impossível, pois éramos suficientes para que o relógio terminasse de vibrar e acelerar ao futuro. Tu, somente tu te assemelhas á perfeição.
Lamento imenso os erros contínuos e pretendo reforçar objectivamente a possibilidade de conquistar a tua confiança, manifestando que continuo semelhante ao início arrebatador. Apenas as dúvidas, inseguranças e medos se ascenderam como contratempos desnecessários. Continuo genuína a mim mesma, desejando que este processo infernal termine definitivamente. Recordo todas as injúrias que pretendiam acabar com o nosso amor, e vivencio maioritariamente a chama da luta progressiva. A luminosidade do que sentes desapareceu? Em mim, continua a garra permanente e emotiva de alguém que simplesmente ambiciona uma oportunidade.
Se eu pudesse seria apenas um vago e inconsciente passado, reflectido na imunidade, ou na suposta imunidade que obtinha em mim, na familiaridade do que é fazer sofrer embora dualmente com a capacidade possível, conseguisse determinar o verbo amar na perfeição. Sim, Amo-te! (E vêm setas na minha direcção, apunhalar-me sem perdão, condenar-me na exaustão, embora o arrependimento possa ser punível apenas pela solidão, pela eternidade do que sou). Mas, não irei ocupar a minha mente impune perante este mundo, pois a mim interessa apenas a discrepância da tua felicidade, do que escolheste, embora mate sem cor, nas trevas da escuridão, clandestina, suja, suja mesmo. Sem a junção da tua metade, a perseguição do teu ser continuará rasgada sobre mim nas cinzas, despojadas apenas de lembranças e nada.
- Que perseguição! Vejo-te vezes ilimitadas. Bem, não te vejo, penso que sim. O amor, a paixão ou o nome que possa tentar definir o sentimento que nutro, perturba-me, sem dúvida. Sinto-me deslocada, confusa, sem um modo correcto de acção perante situações que me tornam introvertida na totalidade, incapaz de seguir no caminho livre que me antepõe.
Sangro sofrimento ultra cravado nas profundezas, e se sem opção fugi do teu peito, arrancada milimetricamente, com a noção ausente de invasão, porque te manténs em mim regularizando um coração em sintonia com a desordem? Talvez porque a chama não terminará jamais, e a garra invencível de ter jamais irá afogar sua dor.
E se em mim nada restou, de que me adianta seguir, reflectir na linha sem nexo da vida, da força incapacitada de me ampliar a perplexos corações de sangue…sangue ardente, que, luta pelo seu desejo mais íntimo, pela dimensão calórica de emoção? Porque não merecia a tua luz sentida de paixão, que de subtil nada tinha, pelo contrário, atingia o grau mais amplo de transmissão amorosa, o dar sem receber, o sorriso por apenas ver, a magia contagiante que surge quando ocorrem os olhares, o meu, com toda a certeza, mórbido por não te ter, por jamais ter repetido a absorção dos teus lábios nos meus, no beijo dito perfeito, complementar, genuíno, único até.
Mas como terminou essa fúria de sentimento ambíguo? Não nos destinamos mutuamente num todo? Situa-me. Oh, tristeza, não me iludas! Apenas tu não alteras a compilação de sentimentos negros, rancorosos, característicos da mágoa inevitável, localizada como esconderijo num inferno escasso de imaginação. Apenas vês a verdade, apenas tu. Um tu que me alimenta de esperança, de que um amor apenas termina na morte. E não, não tendo a afirmar paixões que por cá passam e que por lá se esvoaçam. Redijo a minha respiração ao visualizar a imagem que um dia atingi e venci, que no agora caiu num mar de espinhos, vencida, por erros meus, pela impaciência, pela imaturidade, pela indecência, pela maldade…
Tatuada em mim estás… reforçando a esmerada queda sobre pântanos de gotas sangrentas, continuando esmagada pelo sofrimento, pela incapacidade de alcançar uma felicidade mútua. Poderia eu viver na tua ausência? Jamais! O teu calor apagou a chama do meu sacrifício aterrorizador e permaneço tendencialmente cinzenta num abismo exaustivo, perdida na serradora morte. Encontrar-me-ei um dia sem chegada sobre a tua pele divina, acesa de amor, sobre a tua pele quente e sentida, equivalendo a ambivalência de corpos embriagados á fantasia lunar.
Percepcionada pelo tédio místico e pelo pavor, reflectidos, ambos, no grito de caos degradado, claramente me antecipo na miséria gratuita de não te ter, desmoronando caoticamente na sensível problemática do tema aterrorizado pela tua distância, acompanhado de faces interrogativas – Ter-te-ei? …
Concretizaria um sonho, um sonho que já vivi… na morte incompleta onde já pertenço.