sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Coleciono momentos felizes

          Que tortura. Tento relembrar-me dos tempinhos sociais, pouco ambíguos, em que a única ligação a que nos mandávamos de cabeça era a família. Socorro, que o amor destrói vidas. Socorrei-me tempo incerto. Não conheço tiques-taques de relógios mais insuportáveis, que me façam ver o tempo a amenizar o seu abrilhantamento pouco a pouco. Lua cheia, manda-me um filho de luz, incorpora-me a brochura sábia do tempo que já lá foi.
            Não podia ser amada paternalmente, somente? Isso a que intitulam de sofrimento pós amor, que rasura a doçura adolescente, deixa-nos na cratera da infelicidade, numa possível queda, a qualquer momento, num quê, mas porquê? Eu sei, eu sei. Amar-me-ão, não apenas por uma carinha laroca, que tem gestos menos próprios, palavras ruins, o nariz enrugado e um olhar que perturba mentes (fá-las amar, não nego). De antemão, acredito com rigor, no poder do corpo a corpo, na distância que não rasga um apaixonamento escravo. Tal distância facilita-nos o comprovativo para a janela da certeza. Olho-te e não vejo tenruras, incertezas, malícias: é cessante o amor. Quando m’encontro reguila, compatriota da infância, numa revolta que não me traz os juntamentos felizes dos pais com os tios, dos tios com os primos, dos primos com os avós, é como se não precisasse do amor que me faz sofrer, que me faz mandar aos sete céus, tudo o que se construiu – sete pecados, sete vidas, sete erros. Coleciono-os na construção passo a passo da minha tórrida, por vezes entediante, felicidade.
            Atirar-me-ia ao passado, como uma catástrofe de vento sobre as árvores, que se arrancam das raízes vitais, libertava-me de espelhos que me impedem de esquecer este rosto sofrido, que lamenta martírios antigos, costumes que não voltam, sorrisos simples e sinceros, os abraços aconchegantes, que só o amor do sangue consegue corresponder.

            Pudesse eu ser feliz.

Nenhum comentário:

Postar um comentário